Lula resgata Hino da Independência em atos na Paulista em disputa por símbolos nacionais: 'para saberem que não cabemos no quintal de ninguém'

  • 27/10/2026
(Foto: Reprodução)
Hino da Independência toca no último ato de Lula na avenida Paulista No último ato de campanha antes do segundo turno e, no dia seguinte, na comemoração da vitória, o presidente Lula (PT) escolheu o mesmo símbolo para embalar dois momentos decisivos da eleição: o Hino da Independência do Brasil. Diante de milhares de apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, Lula pediu que a música fosse tocada e, no domingo (25), explicou o motivo: queria que seus adversários soubessem que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. A escolha acontece em meio à disputa política em torno do significado do termo "soberania" e de símbolos nacionais, como a bandeira brasileira, o verde e amarelo e os hinos patrióticos, que ganharam força como marcas de identificação da extrema-direita nos últimos anos. Ao recorrer ao Hino da Independência nos dois atos, Lula leva para o centro de sua celebração eleitoral uma referência à liberdade e à soberania do país. 🔎 Composto pelo Imperador D. Pedro I, em 1822, a letra do Hino da Independência foi escrita pelo poeta Evaristo da Veiga. A composição comemora a declaração de independência do país de Portugal e foi usada como hino nacional do Brasil até 1831. Lula discursa na avenida Paulista Reuters No sábado (24), Lula desfilou em um trio elétrico pela Paulista ao lado da esposa, Janja, e de aliados políticos, entre eles os ex-ministros Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. A campanha e o próprio presidente descreveram o ato como um dos maiores já realizados na avenida. No auge do ato, 14 dos 18 quarteirões estavam ocupados por manifestantes. Quando o Hino da Independência começou a tocar, uma pequena parcela do público pareceu estranhar a escolha. Algumas pessoas se entreolharam, mas a reação rapidamente mudou à medida que o refrão avançou. “Brava gente brasileira, longe vá, temor servil. Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil”, cantaram os manifestantes emocionados. No domingo (25), durante o discurso em que celebrou a vitória no segundo turno, Lula pediu que o hino fosse tocado novamente. “Ontem eu fiquei emocionado, e eu quero pedir para outra vez tocar o Hino da Independência. Para eles saberem que nós não cabemos no quintal de ninguém”, afirmou. LEIA MAIS: Reeleito, Lula diz que venceu 'intromissão' de big techs e que vai mudar jeito de governar Lula faz último ato da campanha na Paulista e destaca mobilização no 2º turno: 'É o povo que está organizando, e não partidos' Veja a íntegra do discurso de Lula após reeleição Disputa pela soberania O significado de soberania também virou alvo de disputa política durante a campanha eleitoral. De um lado, Lula associa o tema à autonomia do Brasil diante de pressões de outros países. Do outro, o adversário Flávio Bolsonaro (PL) usou o termo para falar de segurança pública, segundo a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da FESPSP. “Para essa frente democrática, soberania significa não interferência de uma potência global, como são os Estados Unidos, em questões domésticas, sejam elas eleitorais, sejam elas sobre condução de assuntos comerciais. Então, eu faço comércio contigo, eu não tenho que ceder ao que ele deseja só pelo desejo e pela força desse país”, afirmou. Já a extrema-direita, segundo a cientista política, apresentou outra leitura do conceito durante a campanha. Ela cita as declarações de Flávio Bolsonaro, que associou soberania ao direito de andar pelas ruas em segurança. “Ele trata soberania em termos de segurança pública e tenta dissociar desses elementos de relações internacionais, sobre essa geopolítica”, disse. Apoiadores de Lula acompanham apuração na Avenida Paulista GABRIEL SILVA Nesse cenário, o Hino da Independência ajuda a conectar o discurso de Lula à ideia de autonomia nacional, avalia a cientista política. Para ela, o refrão conhecido e direto dá força à mensagem. “É um hino que todo mundo sabe cantar, tem um refrão bastante contundente e muito direto, muito claro”, afirmou. “O uso desse hino dá esse enquadramento para essa discussão de soberania que o presidente Lula tem feito.” Tathiana também vê a disputa pelos símbolos nacionais como parte do debate democrático. Para ela, bandeira, cores e referências patrióticas não devem ser tratados como propriedade de um único campo político. Essa disputa deve existir e é importante que seja feita, porque a captura total dos elementos pátrios por uma extrema direita tem um sentido muito de exclusão, não de inclusão. “Patriotismo nacional e defesa do Brasil não são bandeiras exclusivas da extrema-direita, nunca foram. Esses são termos políticos que estão sempre em disputa”, afirmou. Histórico de disputas e nacionalismo A associação entre símbolos nacionais, como os hinos patrióticos, a bandeira brasileira, a camisa da Seleção e as cores verde e amarelo, e a extrema-direita antecede a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência. Segundo a cientista política Tathiana Chicarino, essa disputa ganhou força nas manifestações de 2013 e nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, e se consolidou com a eleição de Bolsonaro, em 2018. “Essas disputas remontam ali a 2013, uma disputa da rua. Isso vai aparecer em termos de cores. Então, a gente vai começar a identificar o verde e amarelo como sendo de um campo e o vermelho de outro”, afirmou. Para a pesquisadora, a associação entre as cores e campos políticos também reflete uma polarização que vai além das diferenças partidárias. “Isso tem a ver com essa intensificação de uma polarização afetiva, que não é uma polarização partidária apenas, ou política. Ela é afetiva: eu não vejo o outro e não chego perto do outro. É uma disputa intensa com o outro, quase como nessa simbologia de camisas diferentes, de cores diferentes e de times diferentes, pensando nessa lógica mais de futebol”, disse. Apoiadores do candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), participam do ato Bloco do 22, realizado neste domingo, 18, na Avenida Paulista, em São Paulo. LUIZA FLORENZANO/MODUSFOCUS/ESTADÃO CONTEÚDO Com Bolsonaro, esses símbolos se consolidaram como marcas de identificação do bolsonarismo. Durante a campanha presidencial de 2026, apoiadores de Lula também tentaram reivindicar as cores nacionais. Em 17 de outubro, a oito dias do segundo turno, o deputado federal André Janones (Rede-MG), criador do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, lançou uma missão para os seguidores: publicar fotos nas redes sociais usando verde e amarelo e fazendo o “L” com as mãos, em referência ao petista. A iniciativa é um exemplo da tentativa de romper a associação automática entre as cores nacionais e um único campo político. Tathiana cita movimentos desse tipo ao avaliar que a disputa pode fazer com que mais pessoas se sintam à vontade para usar esses símbolos sem serem identificadas com determinada posição política. A cientista política também diferencia duas formas de nacionalismo: uma excludente, que delimita quem pertence ou não à comunidade nacional, e outra inclusiva, capaz de reunir pessoas com identidades e diferenças diversas. “Existe um nacionalismo que pode ganhar contornos bastante xenofóbicos. Um nacionalismo que é fechado, que delimita quem está dentro e quem está fora. Então, bastante excludente”, afirmou. Em contraposição, ela descreve um nacionalismo que não exige uniformidade para criar um sentimento de pertencimento ao país. “Mas a gente pode ter um nacionalismo mais inclusivo, que, de alguma maneira, foi o que a gente foi construindo em termos de nacionalismo no pós-ditadura, com a redemocratização. Então, ser brasileiro ou se sentir brasileiro é mais do que ter nascido brasileiro”, disse. Para Tathiana, essa ideia permite compartilhar referências nacionais sem apagar as diferenças entre os brasileiros. “Eu posso ter esse nacionalismo que é inclusivo, que é diferente, é diverso, é regionalizado. Mas, ao mesmo tempo, a gente consegue perceber algo que nos une.” Lula segura a Constituição e a bandeira do Brasil em ato na Paulista LUIZA FLORENZANO/MODUSFOCUS/ESTADÃO CONTEÚDO

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2026/noticia/2026/10/27/lula-resgata-hino-da-independencia-em-atos-na-paulista-em-disputa-por-simbolos-nacionais.ghtml


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